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sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Lírios, Lavanda e Jasmim*

Foi uma manhã como outra qualquer. Porém, o sol brilhou com uma luminosidade especial, parecia que as cores estavam mais bem definidas, eu enxergava melhor, quase podia sentir em mim aquelas cores vibrando, como em um sonho.
Vesti um shorts. um par de meias velhas e um tênis fácil de limpar, depois de perceber que parte do dia escorrera por entre meus dedos. Em poucos minutos alcanço a rodovia e, logo em seguida, a abertura na mata. O cheio de terra e folhas mortas era intenso. O barulho do vento na vegetação soava claro e melancólico. Os pneus se chocando contra a lama, contra as pedras, o aço da corrente batendo no alumínio do quadro... Pareço estar completamente integrado à paisagem - eu e minha bicicleta.
Borboletas, gafanhotos, aves e até um pequeno bando de quatis parecem parar no tempo para me ver descer a trilha em alta velocidade. Curvas, saltos, a velha ponte de madeira... Tudo fica para trás ap´pos correr diante de meus olhos. Não existe tempo ou espaço aqui. Como em um universo paralelo livre de leis físicas, me sinto livre.
Tão logo chegam os primeiros pingos de chuva as lembranças se esvaem. Os amigos, família, trabalho, estudos, até mesmo meu nome. Aos poucos tudo torna-se vazio. Somente a natureza existe; eu, não mais. A velocidade torna-se quase insuportável. Já não distinguo a paisagem. A bicicleta move-se sozinha, seguindo a rota costumeira.
Quando sinto a parada brusca percebo que não há mais bicicleta - estou completamente integrado à natureza. Inspiro profundamente, olho ao redor. Penso em erguer as mãos e olhá-las, mas não tenho mãos. Expiro. Nada além de mata, pedras, folhas, flores, pingos de chuva, ar, brisa, o canto do sabiá no alto de uma imbuia em flor.
O calor daquele dia de verão se extinguira. Também não havia frio. Só havia chuva. Inspiro. A percepção diminui, perco a consciência vagarosamente, fecho os olhos até que eu não exista para poder expirar.
Abro os olhos e vejo diante de mim um espelho, mas nada havia refletido nele senão água, peixes, plantas e pedras de rio. Realmente, eu estava dentro do rio. O som da pequena queda d'água se fez real para meus ouvidos ausentes e a pressão da água surge sobre minha pele. Aos poucos a consciência volta, tão lentamente quanto se foi.
Recordo quem sou, as bandas favoritas, os quadros que ficaram gravados na memória, os discos que fizeram parte de tantos momentos...
Percebo minhas mãos, braços, pernas. Tenho vontade de expirar. As bolhas de ar saem de meus pulmões e espalham-se, no espelho, chegando à superfície. As lembranças se colorem, o vermelho e o preto ganham destaque, abre-se um sorriso. O ar acaba, volto para a superfície e logo os pingos de chuva, o verde, o cheiro de terra, das folhas mortas e do musgo voltam a existir. Sinto a brisa tocar minha pele, inspiro novamente. Encho os pulmões e sinto a vida fluir, naquele momento, em tudo ao meu redor.
Já não estou dentro d'água. A pequena cachoeira não pode mais distorcer a imagem refletida pelo espelho, que também se faz vida. Os longos cabelos molhados pendem sobre a pele alva. Os olhos amendoados voltam-se para mim. A imagem do espelho ganha vida, forma e movimento. Aproxima-se lenta, o sorriso ainda mais iluminado. Claramente traz consigo o perfume de flores do campo. Antes que eu pudesse tomar qualquer atitude ergue os braços e estende-os à minha volta. Não vejo o movimento dos lábios, mas a voz doce e melódica ecoa em minha mente, me chamando para partir. Vejo-me agora envolto por aquela criatura, tão eu, tão única, saída da natureza num quadro surreal, inimaginável, sinto meu corpo leve, suspenso no ar, enquanto nos movíamos para longe dali. As lembranças, os gostos, os gestos, tudo se recria exatamente como sempre foi, como num sonho, como em outro universo, como numa outra vida.


*Escrito ao som da chuva, um violino distante e Coil, da banda Opeth.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

O Beijo da Noite


Ela estava ali. Eu cheguei, olhei para a cama e lá estava ela. Lasciva, me desejando. Não falou nada, não me olhou. Quase não se mexeu. Eu, sinceramente, não senti vontade, naquele momento, de me unir a ela. Tinha coisas a fazer e comecei a correr pela casa. Peguei algumas peças de roupa e coloquei na mala. Separei um tênis e coloquei na mala. Escovei meus dentes, apaguei as luzes e fui para o quarto. Ela ainda estava ali. Não me olhou. Quase não se mexeu. Eu disse

- Noite, ainda preciso ler e aguardar o horário certo para dormir. Tenho que responder a algumas mensagens e, só então, unir-me a você.

Ela não me olhou. Apenas disse:

- Por que, então, não aproveitar o tempo e ouvir um iDoser?

Como que hipnotizado, atendi prontamente. "Por que não?", pensei. Seriam apenas 40 minutos, eu poderia experimentar algumas sensações diferentes e, ao final, acordaria, responderia as mensagens que tivesse recebido e poderia dormir em paz, após alguma leitura e uma ligação importantíssima. Coloquei os fones de ouvido, fechei os olhos. 40 minutos apenas...

***

Desperto. "Acabou", pensei. Olhei no celular, várias mensagens piscavam na tela sobrecarregada. O relógio marcava 1h. Três horas haviam se passado. Ela estava ali, deitada do meu lado, satisfeita.

- Noite, o que fez?? - perguntei, assustado.

- Apenas aproveitei seu momento de meditação e usei seu sono. Estava com muita vontade. Desculpe.

Seu sorriso sarcástico me faz sentir ainda mais arrepios. Respondo as mensagens, espero... Nada. Tudo bem, o que mais fazer, se não voltar a dormir?
Mas não é o que ela quer. Enquanto meu cérebro vai diminuindo sua frequência, posso senti-la unindo-se a ele, abraçando-o, até que minha visão se escureceu completamente, e até meus pensamentos mais obscuros desapareceram. Sonhei. Muitos sonhos, muitas pessoas, sensações, música... Foi tudo estranho. Acordei com calor, acordei assustado, acordei com o despertador e, somente neste último momento, pude desvencilhar-me daquele manto negro que me prendia nas terras de Morpheus.

- Acabou. Estou partindo. - disse, decidido.

Nenhuma resposta. Quando olho para o lado, a cama vazia, mais fria que de costume, pela presença daquela que se assenhorou de minha mente nas últimas oito horas. Nada, nem um beijo de despedida. Nada. Levanto-me, tomo um copo de suco e saio. Pelo menos eu estava livre, eu podia pensar e trabalhar e agir livre. Sem mais aprisionamentos do meu pensamento.
Ao sentar diante do computador, vejo um convite, feito por um amigo, para participar de um grupo literário. A ideia me agrada. A visão fica turva. A mente parece paralisada. Logo percebo o que está acontecendo. Não ouço, mas sinto ecoar no íntimo de meus pensamentos:

- Olá.

A única imagem que vejo é um sorriso. Parece-me, inclusive, o sorriso daquele gato, do País das Maravilhas. Ele se abre e sinto como se pudesse observar minha decadência enquanto meus dedos ligeiros percorrem o negro teclado, traçando novas linhas, novas palavras, descrevendo a noite e criando esta nova crônica.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Insônia


Olá, queridos. O que posso dizer da última noite? Foi estranhamente interessante. Não foi boa, de fato, mas convenhamos que foi produtiva e que, hoje, acordei estranhamente inspirado para produção literária. Acho que é um bom dia pra fazer um daqueles testes da Universidade de Cambridge sobre Psicologia.
Quanto à produtividade, segue aí meu mais novo poema, feito enquanto rolava na cama, sem conseguir dormir.

INSÔNIA

Cá estou eu, fora de hora, fazendo o que não devia
Ou, ao menos, não fazendo o que devia.
Mas, de certo, como saber se podia ou não traçar estas linhas?
Acontece que já tarda a noite, e logo chegará o dia.

Insônia, sua insolente! Por que me abres os olhos nesta noite
De flashes ininterruptos, de vento constante?
Ouve só o barulho. Que será? Uma besta uivante?
Gemidos, rangidos, grunhidos, talvez. O vento lá fora se mostra

A casa, para mim, é nova. A cidade também.
Como poderia eu conhecer os sons que a madrugada tem?
O vizinho mequetrefe deve ter esquecido
Mas a TV ilumina a sala e o som incomoda meu ouvido

Sirenes, gritos, em um tipo de aventura policial
Resultarão, bem sei, em meu desgosto matinal
E o cão, que de longe brada, coitado
A tantos incomoda, tenho certeza, mas em que parada
Se encontra o nobre amigo? Não na estrada, nem perto de minha janela
Não incomodaria se persistisse latindo, ou mesmo se tivesse uivado

O vento segue em sua prosa, me lembrando tempo antigo
Memórias de infância, de locais, e da vontade de ter dormido
Aqui perto, bem perto, me parece, alguém arrasta algum objeto
Ou fecha uma janela ou puxa ferro sobre o concreto

Mas por que, justo hoje, haveria de ser assim?
Em meio à madrugada já tentei tantas coisas, mas acabo, enfim
Deitado, a cabeça reclinada sobre o travesseiro e o computador no colo
Amanhecerei certamente com alguma dor. Então, imploro
Cala-te, noite, para que eu descanse, pois logo chegará o dia
E terei de caminhar, ler, correr, será uma correria sem fim

Assim, eu sei, terei problemas, então peço
Por favor, noite amiga, permita-me descansar
Amanhã, no novo dia, preciso muito trabalhar
Colabore, e leve-me, Orfeu, ao teu Sonhar
E encerro meu dia pois, agora nesta linha, deste mundo me despeço.

É isso aí. Apesar da noite "mal dormida" acordei bem, feliz e inspirado. E, agora, vamos para algumas atividades aleatórias do dia. Até breve para, quem sabe, mais um texto neste belo dia fresco de céu azul.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

As Brumas e Você

7h28. Hoje está frio. Puxo o edredom para cobri-la melhor, dou-lhe um beijo suave, cuidando para que não desperte. Me arrumo em silêncio, giro a chave na porta cuidadosamente. Não percebo as brumas que dominam o ambiente. Quando me viro, logo após trancar a porta, ainda cego pelo sono, julgo que meus óculos estão sujos. Retiro a armação de lentes negras e tento limpá-las. Caminho de cabeça baixa, com os olhos semicerrados, até o portão e, quando me dou conta, não consigo enxergar a outra margem da rua. A névoa dominou todos os espaços.
Ah, como eu amo esta paisagem! Não. Amo as brumas. A paisagem é praticamente imperceptível, já que está quase totalmente encoberta. Como numa cidade fantasma, sinto meu corpo arrepiar pelo frescor matinal, mas também pela emoção de estar em um momento tão... indescritível. Não consigo dizer por que me sinto tão encantado pela neblina. Mas, bem sabes, meu amor, ela me fascina.
Olho de volta para a casa, penso em acordá-la para que possa desfrutar deste momento junto a mim. Um momento especial, relativamente difícil de se ver. Mas não posso. Não posso pensar em interromper seu sono, seu momento de repouso. Unir a pessoa a quem mais amo a um momento de harmoniosa admiração da natureza seria perfeito, mas, não posso. Não posso pensar em fazer algo que tire de você este momento prazeroso, assim como qualquer outro.
Sigo meu caminho. Deixo-a para trás. Levo comigo as gotículas de água suspensas no ar denso da manhã enevoada. caminho pelas ruas, sinto tocar minha pele as gélidas e pequeninas frações liquidas, como um perfume que se espalha, como o pólen minúsculo carregado pelo vento, como o aroma do café que você prepara, como o cheiro do seu corpo que domina o quarto com sua presença.
Deixo-a. Pode parecer egoísta, caminhar sozinho pela cidade em um momento em que ela oculta suas linhas, seus corpos, e se enche de mistérios, mas não. Fiz isso pensando em seu bem-estar. Fiz isso porque dentro de mim, no mais íntimo de meus pensamentos, encontro a certeza de que este não será o último momento. Não será a última oportunidade. Fiz isso porque dentro de mim tenho a certeza de que podemos construir um caminho que nos leve a muitos outros lugares, a muitas novas oportunidades, e que inclusive nos leve para um lugar onde as brumas estarão à mercê de nossas vidas, para que juntos possamos desfrutar desta beleza natural em um momento mais propício, você e eu, num dia qualquer, vivendo nosso amor.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Quando a Vontade Chega

Quando a vontade chega não há muito que fazer.
Quando você sente vontade de fazer algo, a primeira coisa é ESCOLHER. Você gosta disso que tem vontade? Esta coisa vai prejudicar você? Vai prejudicar outras pessoas que estão envolvidas? Qual será a consequência? Há uma vantagem de aceites sobre rejeições?
Se as respostas forem favoráveis, vem o segundo passo. PLANEJAR. Como você vai fazer isso? Quando? Quanto vai custar? De quanto tempo precisará? Por onde, para onde vai e onde vai procurar abrigo? Quem estará com você? Como tornar o fato agradável além daquilo que se espera?
Obviamente, o próximo passo é INICIAR o projeto. Comece pela parte mais simples, mas que é considerada essencial para que nada dê errado. Faça aquilo que é necessário logo de cara, para depois ficar apenas com tarefas secundárias. Em caso de falha, ou você não conseguirá executar o projeto, ou você não terá problemas, porque serão erros pequenos demais pra atrapalhar no andamento das coisas.
Depois disso, deve CONTINUAR até o fim. O que você começou deve ser sustentado até o fim. Nunca desista, esqueça ou abandone algo que você goste ou queira muito.
Ao TERMINAR o projeto, faça-o com cuidado, para que o fim não seja um momento de choque, pelos desligamentos ou final das atividades, ou mesmo a separação de pessoas, locais ou objetos. Você deve se preparar para o final. Todos devem se preparar. E então, quando chegar a hora, acontecerá naturalmente.
Depois de voltar pra casa, volte sua vida aos eixos. Nunca mude (exceto se for para melhor, isso é óbvio). Retome suas rotinas, busque suas inovações e, principalmente, CRIE NOVOS PROJETOS. Isso é muito importante.

Mas, se algo, durante este período, acontecer de forma a prejudicar a execução do seu projeto, interrompa o processo. Se você souber que algo vai tentar impedir que se construam seus planos, mesmo que não haja problemas com eles, então abandone projetos, pesquisas e o que mais estiver fazendo.

Pegue suas coisas, caia na estrada, viva sua vida sem planejar. As vezes queremos viver de forma comedida, calculada. e deixamos de viver. Algumas loucuras são permitidas e, sem dúvidas, as melhores experiências serão listadas entre elas.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Cinnamon Girl

HOJE É DIA DE ANIVERSÁRIO =D


E pra comemorar, vai um poeminha...





Um dia andando pela rua
Olhei através de uma janela
Vi em cima do balcão
Um potinho de canela

Anteontem, no almoço
Fizemos carne de panela
E para sobremesa
Abacaxi com canela

Numa noite de cinema
Compramos pipoca na Fiorella
Eram vários os sabores
Manteiga, queijo, maçã com canela

Pelas ruas, caía a chuva
E eu parei diante dela
E no beijo pude sentir
O aroma de canela

=]

Um feliz aniversário para milady Erilva Machado, imperatriz das Terras Quentes, que participa de vários dos meus sonhos, nas buscas incessantes pela noite, nos diversos mundos onde nos encontramos.
Dona de um Amor puro, capaz de encantar a qualquer um que esteja sob a luz dos seus olhos.

Kussen, lichtgestalt!

domingo, 23 de janeiro de 2011

O Mal É Contagioso

Pra quem não entendeu o último post, de novembro passado, devo minhas sinceras desculpas se pareci depressivo ou odioso. Não se enganem. Eu não sou alvo da depressão, meus queridos leitores.


Vou dizer o que aconteceu naqueles dias. Meus pais estavam saindo de viagem, eu tive um pesadelo terrível, mas uma daquelas batalhas épicas contra algum criminoso que tentava me alcançar, vários amigos estavam trabalhando nas operações do RJ. Eu sei que aquilo não é como controlar uma rebelião num presídio, nem conter um bando de torcedores fanáticos que estão fazendo arruaça. Muito menos estar em uma guerra militar. Aquilo é uma guerra civil e numa guerra civil não há como prever os movimentos do inimigo. E sim, eu estava MUITO preocupado. Sem falar, ainda, em outras coisas totalmente sem sentido que eu estava carregando em minha vida naqueles dias. Alguns dias depois daquele post, decidi mudar, olhar para novos horizontes. Não apenas queria explodir as grades, mas sim, o fiz e ainda voei. Voei alto e agora estou no alto da montanha, inspirado pelo estimado AgaGê, poeta da razão. Mas no fim das contas, aquele sentimento ainda permanece.
E pra quem quiser entender no que eu estava pensando, segue a letra de O Mal É Contagioso, de Daddo Villa-Lobos, escrito para a trilha sonora do filme Bufo & Spallanzani (2001), que, inclusive, indico aos amigos. Romance policial, nacional, de qualidade. E vejam vocês que eu nem gosto tanto de filme nacional heim... =D
Preparem-se para uma viagem. pra quem quiser, a música está disponível para ouvir em www.radio.uol.com.br. Procurem na letra D, página 2, Daddo Villa-Lobos. E divirtam-se!








Não adianta, eu sou viciado em perceber a oculta celebração rascante do instinto mórbido extravagante.
Eu sou detetive, e todo detetive olha prás pessoas, olha em volta e pergunta:
- Mefistófeles você está aí?
Olha para uma pessoa e pergunta:
- Até aonde você é capaz de ir?

Não adianta, cada minuto de civilização na minha mente pede uma hora de barbárie. Pede na mente de qualquer pessoa, e eu pergunto:
- E aí rapaz, o teu pensamento criminal é calculado ou passional? Fala pra mim, pacato. Fala pra mim, mulher responsável. Fala pra mim, singelo. Fala pra mim, homem de bem. Teu pensamento criminal é calculado ou passional?

- Mefistófeles você está aí?
Eu sou detetive, eu vivo perguntado isso.
- Mefistófeles você está aí? Você tá em Moscou? Você tá no Rio? Você tá em São Paulo? Mefistófeles liga pra mim, porque não tem jeito, eu estou sempre ligado na caixa postal do mal. Liga pra mim.

Não é apologia, é apenas a consciência da sinistra harmonia. Da estranha harmonia, da suculenta harmonia entre o bem e o mal. O bem é uma boca, o mal é outra boca. Da saliva desse beijo sai a nossa alma.
Eu sou detetive. Consciência policial é como uma consciência religiosa do submundo. Médico, polícia, puta, advogado, todos vivem de botar o dedo na ferida da vida. Não é apologia é apenas uma estranha harmonia.
Maquiavélicos, Exus de Messalina, Sade vivem soprando no ouvido da humanidade a tentação de usar o próximo como alvo de prazer, de rapina de prazer. Rapina de sentimento, de tudo. E eu sou detetive. A pergunta que não se cala na minha consciência é:
- Mefistófeles onde é que você está, você está em Moscou, você tá em Nova York, você tá na Oceania? Liga pra mim Mefistófeles.
A civilização é um intervalo na minha fixação, na minha obsessão. Eu to sempre ligado por profissão na caixa-postal do mal. Liga pra mim.
- Mefistófeles, você tá aí?
Quando eu ando na rua eu fico perguntando pra cada esquina, pra cada pessoa:
- Mefistófeles, você tá aí?
Eu sou detetive! Médico, puta, advogado, bandido...
Cada minuto de civilização na minha consciência pede uma hora de barbárie.
E eu pergunto pra você:
- Teu pensamento criminal é calculado ou passional? E aí você, garota. O que que você tem de triplamente qualificado?
- Mefistófeles, você tá ai?
Eu sou viciado em perceber a oculta celebração rascante do instinto mórbido extravagante. Maquiavélicos, exus de Messalina, Sade soprando no ouvido da humanidade...
A civilização é apenas um intervalo na minha fixação. Eu sou detetive!
Eu vivo botando o dedo na ferida. Médico, puta, advogado, aventureiro...
- Mefistófeles, você tá aí? Até onde você é capaz de ir, mulher responsável?
Diz pra mim... Diz pra mim... Maquiavélicos, Exus de Messalina, Sade.
Não adianta, a civilização é um intervalo na minha fixação. Eu sou detetive!
Eu sou detetive...
O mal é uma boca o bem é outra boca. Da saliva desse beijo nasce... Surge a nossa alma. Alguém tem que fazer o serviço.
- Mefistófeles, você tá aí? Você tá em Moscou? Liga pra mim... Porque eu to ligado na caixa postal do mal. Liga pra mim, Mefistófeles.
- Um Crime nunca existe isolado, num estado de pureza.
Teima...
- O mal é contagioso.
Minha consciência teima...
- O mal é contagioso.
Teima...
- O mal é contagioso.
Cada minuto de civilização pede uma hora de barbárie...

(Narração de Tony Ramos, em cena do filme Bufo & Spallanzani, 2001)

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Várias Variáveis I

Abri a gaveta com a sensação de que eu encontraria algo bom pra comer. Mas não encontrei. A única coisa que eu tenho pra engolir é a verdade. Eu deveria estar escrevendo isso. Abre o Blog, pensa, escreve, pensa, escreve, pensa, escreve, pensa, escreve...

Não consegui uma vaga pro Mestrado da UEM. "Tudo bem, tenta ano que vem", dizem vários. Mas não, não posso perder tempo. Ou melhor, já perdi. Mais um ano parado e tudo por causa da esperança de ter ido embora pra Santa Catarina. O que tem naquele lugar que eu tanto quero? Mulheres, praia, sol, mar... A vida não é pra mim. O clima perfeito não é pra mim. Enquanto isso eu vou passar aqui, trabalhando aqui, respirando o pó velho daqui. E minha alergia vai continuar viva aqui, dentro de mim.
Tudo bem, essas coisas acontecem. A vida continua e a cidade permanece a mesma, enquanto eu vou tentando me adequar. Mas quem é que se adequa a alguma coisa? Adequação é mudança e mais do que nunca me convenço de que pessoas não mudam.

E quanto a ela? Ela ficou. Ficou só. Ficou triste e por isso chorei. Mas a vida aqui segue. A vida aqui, enquanto estou preso nessa redoma segue. E apesar de tudo, segue feliz. Feliz porque tenho mais companhia.
E eles? Eles tão lá, na rua, subindo o morro, atravessando o Inferno Verde. Daqui a pouco vão começar a descer. E o que eu posso fazer? Nada. Minha tarefa é outra. Enquanto eu quero fazer parte da força-tarefa que tá quebrando tudo por lá, minha missão é permanecer aqui, calado. Tenho minhas obrigações aqui também e é claro que eu não poderei deixá-las pra trás.

Fico aqui, enquanto isso, aguardando uma ligação. "Onde é que vc tá, parceiro? Tá na Penha, tá no Largo? Tá no morro?" "Eu sou detetive. A única coisa em que consigo fazer é pensar sobre essa porcaria toda", diria o Inspetor Guedes. Mandei os caras pra morte, pra ver face a face o que é estar numa guerra. Quero saber quando os caras que tavam no meio-oeste europeu vão chegar. E como é que os malditos vão agir? Conversar em búlgaro no meio da favela? Isso vai ser tenso. O bom é saber que a parada toda vai acabar.

Final de semana vai ser livre. Tenho aula, mas, e daí? Aquilo é quase um recanto de paz pra minha alma. Eu fujo do mundo quando to com o pessoal da pós graduação. Discutimos teorias diversas e eu esqueço dessa m**** toda. E depois, algumas horas com ela vão fazer eu ficar bem calminho.

Eu hoje tive um sonho. Eu peguei você, seu safado. E vou pegar cada vez que você tentar alguma coisa contra mim ou contra minha família, meus amigos. Você já era. Sabe bem disso. E sabe que quando eu te pego as coisas não ficam bem pro seu lado. Eu vou quebrar cada um de seus ossos.


Final de semana vai ser bom. Pais viajando em segurança, em paz, a caminho da Capital. Amigos, voltem logo. Que esta operação seja a prova de que vocês são os melhores. E quanto a nós, que permanecemos aqui, vamos vivendo, poque nenhum entendimento será o bastante para a vida. "Viver ultrapassa qualquer entendimento".


Da minha morte, à vocês!

Com amor, O, C, B e K.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Voar, voar...

Eu hoje sonhei que estava voando. Sim, dentre vários sonhos desconexos (ou não) que tive, o principal, último e mais agradável era isso: estava com alguns amigos, em um local reservado, algo como uma chácara, próximo (bem próximo, do tipo "cruze o asfalto") a uma cidade, em que várias pessoas se encontravam para comemorar o final de semana. Quase uma AABB.

O fato é que um garotinho, devia ter uns 10 anos, me guiou por entre aquelas pessoas, passamos ao lado do restaurante, sobre a pequena ponte, atravessando o lago que circundava as construções em madeira, de característica rústica, porém, aconchegante.
Ao chegarmos do outro lado ele me disse:
- Agora pule, posicione-se na horizontal e faça assim com as mãos - movimentando-as em ondas deslizantes no ar. Acompanhei-o, imitando o movimento. Ele abriu um sorriso e me incentivou, como se estivesse abrindo caminho para mim.
Dei alguns passos acelerados e me atirei contra o vento, indo de barriga em direção ao chão. Porém, antes que o tocasse, senti-me flutuando, como se estivesse dentro do lago que nos sondava em misterioso silêncio a poucos metros dali.
Movimentei as mãos em ondas, como se estivesse mergulhando, imitando o movimento de um golfinho, o que me fez deslizar livremente. E eu fazia os movimentos cada vez mais rápidos, com mais facilidade, até pegar velocidade e me direcionar para a pequena mata ao redor da propriedade em que estávamos. Foi maravilhoso. Depois, ainda, voltei voando em direção àqueles primeiros que estavam no local, nas churrasqueiras, perto da entrada, que nos viram chegando uns poucos minutos atrás. De repente, foi como se algo me estivesse puxando em direção ao chão. Não conseguia mais me manter flutuando. "Está na hora", pensei. Então, tudo se desmanchou, toda aquela cena se desfez, com a sirene disparada, em meu celular, despertei, novamente em meu quarto.

Interessante porque há alguns meses eu me questionava sobre o impulso de "liberdade" que as crianças apresentam. A maior parte delas demonstra algo como que um impulso natural para o vôo e para a velocidade.
Observando um garotinho brincando com carrinhos, de flexão ou não, observamos que há a intenção de movimentar o objeto com velocidade potencial. Quer dizem, em vez de atirar o brinquedo pelos cantos da casa, ele o movimenta lentamente, mas em sua imaginação a corrida se faz a mais de 80 Km/h. Uma garotinha no banco, outro dia, brincava com sua pelúcia, fazendo-a flutuar levemente, como se um porco espinho fosse dotado de um dispositivo como um jetpack, indo para cima e para baixo, sem limites, ignorando totalmente a força da gravidade.
Sabe-se, pelo estudo da Doutrina Espírita, da capacidade da alma de deslocar-se livremente pelo espaço. Seria então, durante a infância principalmente, a exteriorização da "impressão" (enquanto lembrança) dessa capacidade? Obviamente, almas menos evoluídas não tem tanta liberdade, mas possivelmente perceberam isso de outros espíritos ou carregam consigo o sentimento inato da capacidade que possuem, mesmo sem saber como é e como funciona.

Enfim, doce liberdade que preenche ossos momentos de "cérebro vazio". Nos dias de nossas vidas sobram os sonhos e as vontades, faltam algumas capacidades.
Pra encerrar o post, fica uma música do blindagem, chamada Gaivota, composta por Alberto Rodriguez, Ivo Rodrigues Jr. e Paulo Teixeira:




GAIVOTA

Sou gaivota por sobre o mar
Meu vôo é volta de qualquer lugar
Desapareço no tempo, no ar
Antes que um olho consiga piscar
Num vôo razante
O que eu vi não dá pra acreditar
Dá pra acreditar?

Minhas penas tremendo
Me levem daqui
Faço parte do vento
Vou me embora correndo...

Se acalme, se acalme...


















(Imagem: "Learning To Fly", by Jessica Gregory, acrilic and oil)