quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Sobre as Musas Inspiradoras

Voltar a escrever exige inspiração. E inspiração assim, depois de tanto tempo, exige algum esforço. Para se obter êxito necessário se faz concentração, talvez em demasia, talvez não. Mas em meio a este vasto Universo existem seres especiais que servem para inspirar e dar vida a alguns pensamentos, pobres folhas recém nascidas das mentes criadoras de poetas, compositores, escritores, cientistas, ou apenas daquele homem que analisa o céu durante um tempo e, ao unir estrelas com linhas e agulha imaginárias, traça rotas para seus pensamentos se concretizarem dentro de si mesmo e, assim, dar sentido a sua vida, seja lá qual for (o sentido, ou a vida).

Estes seres - falemos deles - são como ... Não, não podem ser estrelas. Porque estrelas surgem no céu numa noite e permanecem lá, iluminando por anos-luz a vida dos observadores e, mesmo durante o dia, sabemos de sua presença, magnitude e poder. Sabemos também do seu poder de destruição, visto que são uma chama poderosa, incontrolável, que arde até que se acabe seu combustível. Estes seres não podem ser assim.



Também não podem ser estrelas cadentes, porque apesar de toda sua beleza, características únicas e encantamento, se vão tão rápidos quanto chegam. E também não podem ser flores, cujo perfume, por vezes inebriante, sofrem com as secas ou chuvas excessivas, acabam-se após alguns dias de magistral beleza, e só aparecem quando há condições ideais para isso.

Estes seres, porém, são como árvores. Mas não uma árvore qualquer. São grandiosos e imponentes como uma sequóia, fortes e resistentes às más condições climáticas, como as palmeiras. Existem durante gerações e mais gerações, como as Cicas, dão flores belas, coloridas, de formatos variados e e de aromas inigualáveis, sempre que desejarem, assim como as orquídeas, mas muito mais duradouras e belas.

Porém, além de todas estas características, estes seres - ou criaturas, como acharem melhor - dão algo ainda mais importante: o fruto. Um fruto que não é doce, mas agrada a todos os paladares. Um fruto que não tem suco, mas mata a sede de carinho, amizade, amor, companheirismo. Um fruto que não mata a fome, que não tem proteínas, carboidratos, lipídios, vitaminas e minerais, mas que tem sorrisos, secam lágrimas, apoiam, criticam quando oportuno, que embelezam tardes de inverno e fazem as manhãs serem mais agradáveis, por alimentar a alma.

Estes seres, tão grandiosos, ainda possuem o colo generoso de um Baobá, que recebe nos braços as nossas crianças interiores em momentos de aprendizado, de dor ou de folia, e nos sustentam calorosos, protegendo-nos contra os monstros do mundo.

Deus colocou em meus dias seres assim, e ainda surgem alguns, por vezes, me surpreendendo. Assim, risco estas linhas com gratidão, generosidade e amor, pois é graças a estes seres - estas musas, que não necessariamente são mulheres, apesar do termo genericamente feminino - que consegui tantas conquistas, tantos bons resultados, e toda a inspiração necessária para produzir meus textos, minhas brincadeiras, minhas teimosias e, até mesmo, meus maiores amores, cultivados e sustentados por toda vida.

Recebam esta singela homenagem como símbolo da nossa união. Que nossas vidas permaneçam unidas, independente da distância que exista entre nós. Deus os abençoe, meus amores.


P.S.: Que sirva, principalmente, como felicitações para a amiga Erilva, que hoje faz alguns tantos anos (muitos mais do que se possa imaginar), e que por todos estes anos tornou meus dias mais alegres, como um bônus diário de felicidade. Surgiu como um brotinho, em meio à vastidão da terra, e rapidamente cresceu e mostrou-se grande diante de mim. São 8 anos de amizade, 8 anos de aventuras imaginárias e apoio constantes. Histórias que se perdem no tempo, mas nunca serão apagadas das lembranças. Felicidades, engenheira =)

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

O Retorno no Fim do Dia


Adeus, Meus Sonhos!


Adeus, meus sonhos, eu pranteio e morro!
Não levo da existência uma saudade!
E tanta vida que meu peito enchia

Morreu na minha triste mocidade!


Misérrimo! Votei meus pobres dias
À sina doida de um amor sem fruto,
E minh'alma na treva agora dorme
Como um olhar que a morte envolve em luto.



Que me resta, meu Deus?


Morra comigo
A estrela de meus cândidos amores,
Já não vejo no meu peito morto
Um punhado sequer de murchas flores!


(Álvares de Azevedo)


Há muito este poema está aqui, morto, abandonado ao tempo, enquanto espaço algum há de percorrer, pela sua insignificância preconceituada em uma visão superficial e imediatista de meus dias. Forçosa e cegamente o abandonei. Até quando ficaria aqui? Se uma alma vagante do mundo não me tivesse alertado sobre seu paradeiro, ainda estaria preso em um corredor infinito, onde cada esquina joga-lo-ia ao seu início, desperdiçando as nobres e apaixonadas palavras de um dos grandes senhores das sombras, aonde o mundo se dirige em momentos de melancolia, aflição e tristeza. Porém, não mais nas sombras estas palavras e, assim como o mar, em letras  esparramadas de Paulo Leminski, sobre a pedra à beira mar, vão espalhar-se mundo a fora, desde o litoral, passando pelas ruelas de Morretes, subindo a Mateus Leme até o Largo da Odem, a ser visto pelo Sr. Trevisan, saindo pela 277 e percorrendo este tão belo estado, levado pelo vento gélido que hoje sopra até o alto das colinas, tocando de leve o meu ser, que deixa um suspiro breve de saudade e lembrança.

Boa noite, amigos meus. Boa noite.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

A Menina

No dia 31 de Agosto este texto deveria ter sido publicado. Porém, um possível erro no sistema de "Salvar/Publicar Automáticamente" fez com que o texto não fosse para a página. Com atraso, portanto, mas não com menos entusiasmo e alegria por mais esta publicação, criação e literalmente um presente, pra alguém que considero uma amiga, publico hoje, três dias após o prometido:

A menina tinha um ar diferente. Parecia menina, mas não era tão menina assim. Às vezes ela parecia tão menina que eu a olhava e pensava: "Mas é mesmo uma menina". Às vezes não. As vezes eu não pensava coisa alguma, apenas a deixava caminhar livre, pela calçada, até chegar no gramado e colher aquela florzinha amarela que cresce na grama.
- Olha! - ela dizia. - Um dente de leão. Tão bonito, tão simples, tão forte...
Eu a observava. Apenas observava. Um dia a menina ficou brava e me mandou embora. O que poderia eu fazer? Dei uns quinze passos para longe, parei atrás de uma árvore e fiquei ali, olhando. Teve uma hora que ela me viu. Dei bobeira, sabe como é. Ela me viu e gritou: "Vá embora, eu disse!". Eu havia feito algo que a deixara irritada. Mas nada mais poderia fazer para mudar aquilo. Subi numa outra árvore, não muito distante, e fiquei a observá-la por entre as folhas verdinhas, dia e noite. Mesmo em silêncio, ela sabia que eu estava lá e, às vezes, dava uma olhadela, de canto de olho, só pra ver o que eu estava fazendo.
A menina ficava lá, no seu universo particular. As vezes viajava, conhecia outros portos, encontrava portos velhos, fazia muito, ou fazia muito pouco, como ela quisesse. As vezes apenas dormia. As vezes acordava e me mandava acordar também. E eu acordava. Eu a observava por mais um dia e lá estava ela. Os cabelos marrom-claros amarelos azuis vermelhos marrom-claros voavam com o vento. O rosto cor de pele clarinha corava, ou ficava branco, ou ficava coberto pelo capuz da blusa preta. As unhas pretas brancas azuis roxas arranhavam a terra, pra pegar uma flor ou outra, ou arranhavam a pele, ou arranhavam o céu enquanto ela pegava estrelas perdidas.
Um dia eu estava dormindo e ela me derrubou do galho onde eu estava. Veio rindo, contente, conversou comigo naturalmente e até chorou, em dado momento. Mas ofereci meu ombro amigo e ela logo ficou bem.
E assim a menina foi, e assim a menina ia. Dia e noite, colhendo estrelas flores portos universos pessoas. Esta era a menina dos olhos brilhantes azuis verdes. Magrinha, pequena, mas com um abraço do tamanho do abraço de um lutador de MMA. Que as vezes era confusa, mas sabia sorrir e deixar tudo mais bonito.
A menininha que um dia foi menininha, e que agora não é mais. A menininha que, mesmo não sendo mais uma menininha, será pra sempre a menininha: magrinha, com abraço forte e um coração enorme.

Parabéns, May =)

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

O Beijo da Noite


Ela estava ali. Eu cheguei, olhei para a cama e lá estava ela. Lasciva, me desejando. Não falou nada, não me olhou. Quase não se mexeu. Eu, sinceramente, não senti vontade, naquele momento, de me unir a ela. Tinha coisas a fazer e comecei a correr pela casa. Peguei algumas peças de roupa e coloquei na mala. Separei um tênis e coloquei na mala. Escovei meus dentes, apaguei as luzes e fui para o quarto. Ela ainda estava ali. Não me olhou. Quase não se mexeu. Eu disse

- Noite, ainda preciso ler e aguardar o horário certo para dormir. Tenho que responder a algumas mensagens e, só então, unir-me a você.

Ela não me olhou. Apenas disse:

- Por que, então, não aproveitar o tempo e ouvir um iDoser?

Como que hipnotizado, atendi prontamente. "Por que não?", pensei. Seriam apenas 40 minutos, eu poderia experimentar algumas sensações diferentes e, ao final, acordaria, responderia as mensagens que tivesse recebido e poderia dormir em paz, após alguma leitura e uma ligação importantíssima. Coloquei os fones de ouvido, fechei os olhos. 40 minutos apenas...

***

Desperto. "Acabou", pensei. Olhei no celular, várias mensagens piscavam na tela sobrecarregada. O relógio marcava 1h. Três horas haviam se passado. Ela estava ali, deitada do meu lado, satisfeita.

- Noite, o que fez?? - perguntei, assustado.

- Apenas aproveitei seu momento de meditação e usei seu sono. Estava com muita vontade. Desculpe.

Seu sorriso sarcástico me faz sentir ainda mais arrepios. Respondo as mensagens, espero... Nada. Tudo bem, o que mais fazer, se não voltar a dormir?
Mas não é o que ela quer. Enquanto meu cérebro vai diminuindo sua frequência, posso senti-la unindo-se a ele, abraçando-o, até que minha visão se escureceu completamente, e até meus pensamentos mais obscuros desapareceram. Sonhei. Muitos sonhos, muitas pessoas, sensações, música... Foi tudo estranho. Acordei com calor, acordei assustado, acordei com o despertador e, somente neste último momento, pude desvencilhar-me daquele manto negro que me prendia nas terras de Morpheus.

- Acabou. Estou partindo. - disse, decidido.

Nenhuma resposta. Quando olho para o lado, a cama vazia, mais fria que de costume, pela presença daquela que se assenhorou de minha mente nas últimas oito horas. Nada, nem um beijo de despedida. Nada. Levanto-me, tomo um copo de suco e saio. Pelo menos eu estava livre, eu podia pensar e trabalhar e agir livre. Sem mais aprisionamentos do meu pensamento.
Ao sentar diante do computador, vejo um convite, feito por um amigo, para participar de um grupo literário. A ideia me agrada. A visão fica turva. A mente parece paralisada. Logo percebo o que está acontecendo. Não ouço, mas sinto ecoar no íntimo de meus pensamentos:

- Olá.

A única imagem que vejo é um sorriso. Parece-me, inclusive, o sorriso daquele gato, do País das Maravilhas. Ele se abre e sinto como se pudesse observar minha decadência enquanto meus dedos ligeiros percorrem o negro teclado, traçando novas linhas, novas palavras, descrevendo a noite e criando esta nova crônica.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

E Hoje, o Que Será?

Agosto
Mês do cachorro-louco
Por que, então, não posso
Simplesmente dormir mais um pouco?

Antes do café, ainda
Vêm-me a inspiração
Com olhos inchados na manhã tão linda
escrevo - mera distração

Sinto os cabelos um tanto desarrumados
Sinto o agasalho me manter aquecido
Vejo homens, mulheres, humanos e desalmados
Pessoas que pensam, que salvam, ou deixam o mundo esquecido

O que dizer? - pensa o cachorro
Se estou aqui, solitário.
Todos nós, pedindo atenção, socorro
Pobres bichanos, mimos do empresário

E hoje, o que será? - diz o gatinho
Se nada poderei fazer com aquele sujeito
Ele passa o dia todo fora, fico só
Mas à noite, sei, poderei dormir em seu peito

O frio da manhã me faz delirar.
E por acaso cachorro pensa?
Como um gato poderia falar?
Acho que neste ponto só um café compensa

E o café vai me ajudar a manter a mente
Funcionando, livre, leve, gostosa
Pensante, aquecida, sistemática, fluente,
Em verso, em música, sem rima ou em prosa.

**bobagens das primeiras horas da manhã**

*Texto motivado pelas conversas literárias com o amigo Lima (http://devaneiosdolima.blogspot.com).